Humanismo & Congressos Elvis Fernandes em 28 Jul 2008
XII Congresso - Sessão de narrativas
A sessão de narrativas do XII congresso foi fantástica: ao mesmo tempo em que as pessoas aprenderam muito e se emocionaram em igual proporção, também se divertiram bastante. Além das narrativas inscritas previamente no site do congresso, houveram outras histórias que foram contadas espontaneamente, que vieram à mente dos participantes durante o evento. Foi uma experiência enriquecedora para todos.
Entre tantas histórias reais, ouvimos também uma poesia de Edinaldo Torres, que foi lida pelo Edson Freitas, estudante de medicina que participou do congresso. A poesia narra a história de uma paciente “matuta”, como o autor a descreve, que é atendida por um médico muito conceituado. Com um enredo engraçado, o autor mostra que para que o médico possa entender seus pacientes não é necessário somente a técnica, mas ele tem que ser um médico HUMANO.
Esta é a poesia que o Edson nos enviou:
A consulta da matuta com o doutor da capital
Autor: Edinaldo Torres
Como tudo anda difícil
E o desemprego é geral
O doutor da capital
Veio para o interior
Antes de chegar aqui
Muito bem se preparou
Também se especializou
Fez residência e mestrado
Tem título de doutorado
De tanto que estudou.
Nascido lá em São Paulo
Também estudou por lá
Nunca veio passear
Em cidades do nordeste
Conhece todo o sudeste
América, França, e Japão
Fala inglês com correção
E um português perfeito
Só nunca falou de direito
Com o matuto do sertão.
Um dia no consultório
A secretária anunciou
Sua paciente chegou
Já posso mandar entrar?
O nome dela é Josefa
Tem setenta e cinco anos
E veio fazendo planos
De sair daqui curada
Com receita detalhada
Pra todos seus desenganos.
Bom dia dona Josefa
Se antecipa o doutor
Eu estou a seu dispor,
Querendo impressionar!
Eu sei que vou lhe curar
Pois sou muito preparado
Não tenha nenhum cuidado
Que vou lhe deixar sarada
Disposta e recuperada
Com o remédio acertado.
Adeus, diz dona josefa
De modo muito singelo
Com um sorriso amarelo
E um tanto desconcertada
Pois ao falar com o doutor
O matuto fica pequeno
E a voz já sai trendo
Por falta de experiência
Precisa ter paciência
Para acabar se entendendo.
E então dona Josefa
Precisamos conversar
Sou doutor, vou ajudar
A resolver seu problema
Fazer algumas perguntas
Faz parte do meu sistema
Pra consulta concluir
E eu tratar a amiga
É preciso que me diga
O que é que lhe troxe aqui?
Eu sai lá da caeira
Onde fica minha roça
Fui andando de carroça
Inté chegá na rajada
Dispois vim cum vitorino
Do posto de gasolina
Chegando em Petrolina
Lá na cohab eu fiquei
Finalmente aqui cheguei
Num oimbu de Joalina.
A senhora não entendeu
O que eu quis lhe perguntar
Diz o doutor a falar
Com muita perseverância
Procurando outra instância
Usando de paciência
E com muita inteligência
Calmo a raciocinar
Passou a lhe perguntar
Qual é a sua doença?
Mas doutor se eu soubesse
Responder esta sentença
Juro pela providença
Num vinha me consultar
Eu paguei particular
Pra mode falar c’ocê
E o senhor quer saber
Qual é a minha doença?
Tenha santa paciença
O amigo estudô pra quê?
Tenha calma dona Josefa
É só um mal entendido
Pois tudo que eu lhe digo
O sentido é diferente
E devagarinho a gente
Vai tentando se acertar
Mas pra consultar alguém
Esse alguém tem que dizer
E eu preciso saber
O que a senhora tem?
Tenho uma vaca amojada
Um lindo pai de terrêro
Dez galinha no pulero
Qui todo dia põe ovo
Pra sustentar o meu povo
Um vaso chei de fejão
Cinco quarta de arrois
Batata, farinha e mie
Pois sustentei os meu fie
Pensando bem no depois.
O doutor respirou fundo
Passou a mão no cabelo
Mas como ele tinha zelo
E amor à profissão
Foi retomando a conversa
Falando muito sem pressa
E ainda sorridente
Me diga dona Josefa
Só o que me interessa
É o que a senhora sente?
Doutor o que eu sinto mermo
É vontade de ir embora
Qui já faiz bem mea hora
Qui entrei pra me consultar
E o senhor a perguntar
Só coisa de fofoquêro
E de mim num quis saber
Os incômudo qui eu sinto
Que eu tenho muito, num minto
Alguns eu vou lhe dizer.
Eu tenho um rejeto inchado
Na passarinha um repuxo
Uma gastura no buxo
Desarranjo, féu virado
Dá um farnizim do lado
Do osso do mucumbu
Eu dou muito passamento
Pra caminhar eu arquejo
E num posso cumê quejo
Qui saio sortando vento.
Mas vou consultar cum belo
Que mora em maiadera
Curandero de mão chea
E entende o que a gente fala
Já vou sair dessa sala
Que é chagada a minha hora
Foi andando sem demora
Abriu a porta e saiu
Pra o doutor ainda sorriu
Deu adeus e foi embora.
Sem acreditar naquilo
O médico ficou parado
Pensativo ali sentado
Rabiscando num papel
Não é só título que conta
Por tudo que viu passar
Pro matuto consultar
Ele precisa entender
Tem muito que aprender
Com a cultura popular.



